ENTREVISTA com BBOY PACHECO – RECIFE CITY BREAKERS

2010-04-14 23:38

 

Apresentação do entrevistado.

            Sou Pacheco, diretor, coreógrafo e B.boy na Family & Crew Recife City Breakers (RCB) e representamos a UBI. Comecei a dançar em meados de 1988, dançando o New Jack Swing (praticado em Okland) e o Jam (praticado em Nova Iorque). A grande referência desse estilo de dança foi o MC Hammer. Desde que iniciei a prática de B.boying em 1997, já ministrei aulas em academias, além de ser arte educador de projetos sociais.

1) Fale sobre o desenvolvimento da dança bboying e suas influências locais. (Na sua cidade e/ou estado)

            A falta de informação foi o grande desafio da 1º geração de dançarinos brasileiros. Dentro dessa realidade posso dizer que houve uma mudança significativa na concepção do que era dançar, de fato, em 2002 quando fui a São Paulo através do convite do Soldierman. Ele me deu a chance de adquirir um conhecimento mais detalhado sobre a Cultura Hip-Hop e a dança B.boying. Foi através dele, Mr. Fê, Bispo, Eduardo Sô e Rock Master André que adquiri muito conhecimento dentro dos 40 dias que passei em São Paulo. Quando voltei a Recife já tendo noção do que era Feeling, Flow, Flavor e alguns nomes originais de movimentos básicos/fundamentais, repassei tudo que aprendi para todos que queriam ouvir e aprender. Posso dizer que em Recife e cidades adjacentes como Caruaru, Paudalho, São Lourenço da Mata dentre outras foi um divisor de águas.

            Todos que queriam representar o B.boying na sua essência, a True School tiveram que reaprender tudo da forma certa com os nomes corretos dos movimentos,  as músicas apropriadas para os B.boys/B.girls, Poppers, Lockers dentre os outros gêneros das danças urbanas, criadores e etc. Antes disso o Toprock chamavamos de "gingado", o Footwork de "sapateado", o Freeze de "parada", o Power Move de "Rock Dinâmico" e assim por diante.  Desde 1981, que existe o B.boying em Recife. Quer dizer, foram mais de 25 anos para aprendermos a representar o B.boying com conhecimento e técnica. Conhecimento é poder, conhecimento mostra o caminho certo a ser tomado e o errado a ser desviado. Através da internet todos tiveram acesso a sites de competições, músicas e trocar e-mails em prol do conhecimento próprio. Temos uma ótima ferramenta a nosso favor e ninguém agora pode reclamar sobre esse assunto.  A influência mais forte aqui é a Capoeira mesmo, pois ela é muita praticada em nosso estado. Mas a minha crew trabalha também com o Frevo que é uma dança original daqui e mundialmente conhecida. Mas dependendo da criatividade e ousadia de cada um, podemos trabalhar e trazer várias influências para o B.boying. Para isso nossa mente precisa estar aberta e sem preconceitos.

 

2) Qual é a maior dificuldade em termos de evolução no seu estado?

            A evolução só existe por causa do básico/fundamento.  O Air Chair veio do Chair Freeze, por exemplo. Na minha visão a grande dificuldade em nosso estado é a evolução mental. As crews e dançarinos independentes terem um próposito com a dança, trabalhar profissionalmente, montar espetáculos, respeitar e estudar sobre a história e os pioneiros da dança, dançar com sentimento, representar de verdade o B.boying. Infelizmente, a "evolução" aqui é uma grande parte das crews assistirem o You Tube ou battles internacionais e copiar na cara dura sessions de B.boys como Hong 10, Ronnie, Mouse dentre outros. Isso mostra uma grande falta de caráter e personalidade. Quem faz isso se apaga atrás do verdadeiro B.boy que foi copiado!

Nem ouso chamar esse tipo de pessoa aqui ou em qualquer canto do mundo de B.boy. Chamo de Frankenstein, pega um pedaço de uma session de um, junta com de outro e daquele outro B.boy e pronto! Nasce o Frankenstein. Parece comédia senão fosse trágico!!! Mas admito que existem pessoas com grande potencial e que poderiam representar em qualquer competição nacional ou internacional. Temos acesso a DVD' s como Footwork Fundamentls, Old School Dictonary, Step By Step, The Freshkids dentre outros, tivemos aqui B.boys como Kokada (T.A.S), Muximbinha e Papel (DF Zulu Breakers), Eduardo Sô (Discípulos do Ritmo), Bocão e Daniel (QDM) ministrando workshops de B.boying e Brokliyng Rocking, temos sites com textos sobre a dança, pioneiros etc. Como já disse: a Internet está a nosso favor mais quem quer assistir e copiar B.boys no You Tube ou ver a gata mais gostosa do orkut, eu, só lamento. Mas essa é a realidade aqui e isso prejudica muito num contexto geral a cena da dança de rua em nosso estado. Essa mentalidade é a grande dificuldade que temos de sermos reconhecidos no Brasil e termos algum representante daqui ou crew num evento nacional/internacional.

3) Você acha importante ter contato com outras companhias de dança e/ou crews dos demais estados ou de outros países? Explique.

    Sim. Essa possibilidade nos traz conhecimento, troca de experiências, troca de idéias e parcerias. Isso é muito benéfico para a crew. Desde que essa esteja aberta, seja humilde pra aprender, sensata, sincera e honesta ao passar o que sabe. A pessoa pode ser convidada pra passar uma temporada fora do Brasil e adquirir experiência internacional e conhecimento. E esse conhecimento é repassado para sua crew e cidade.

 

4) Apesar da dança ser uma cultura de rua, praticar e ensinar bboying em ginásios e academias tem se tornado muito comum. Porém muita gente afirma que isso tira a originalidade da dança que nasceu nos guettos. Qual é sua opinião?

            Isso é uma visão preconceituosa e lamentável. Quem pensa assim se limita e faz com que sua arte seja limitada também. Sabemos que a origem da dança vem da rua mais o básico/fundamento, a essência, a história da dança pode e deve ser levada aonde ela for respeitada e valorizada. A questão não é que vá perder a originalidade ao ser levada para esses espaços, e sim, quem vai ministrar essas aulas. Tudo depende desse profissional. Depende da consciência, da seriedade e honestidade desse profissional e com isso a dança de rua pode ser praticada em projetos socias, ginásios e academias. A dança é a linguagem do corpo, a expressão da música com sentimento através do corpo. Independentemente da dança executada, a dança é uma arte que nos impressiona, emociona e pode nos mostrar e contar alguma história. Depende apenas da proposta de quem mostrar essa arte.

5) Como ocorrem os eventos no seu estado e/ou cidade? Há algum patrocínio? Apoio cultural de empresas, instituições, governo etc?

            Existem poucos eventos em Pernambuco e nenhum que aconteça anualmente e com boa premiação, estrutura etc. Existe o maior evento para B.boys/B.girls realizado por Moisés Alexandre da Brigada Hip-Hop/PE, chamado de Encontro Pernambucano de B.boys & B.girls que acontece desde 2001. Mas há 2 anos, não acontece por falta de apoio/patrocínio. Algumas posses conseguem organizar battles de pequeno porte com premiação, mas com muita dificuldade. Às vezes, conseguem apoio de padarias, supermercados entre outros. Existe o Dalho Hip-Hop realizado pela Posse MCH2P no interior chamado Paudalho localizado a 45k de Recife. Eles têm apoio da prefeitura da cidade e a organização trouxe o Kokada, Muximbinha, Papel, Bocão e Daniel QDM como

jurados para ministrar workshops. Não vou aqui "culpar" a falta de patrocínios só das prefeituras, empresas e tudo mais. No Nordeste essa realidade ainda é muito difícil. A falta de credibilidade de apoio/patrocínio ainda é grande. Mesmo depois de grandes eventos mundiais estourarem e termos competições nacionais de níveis e eliminatórias internacionais no Brasil. As pessoas da Cultura Hip-Hop têm uma parcela dessa culpa também por não saberem elaborar um projeto e como apresentá-lo. Existem também algumas pessoas que tem a oportunidade e usam o nome da Cultura Hip-Hop e/ou suas vertentes em benefício próprio. E quando a casa deles cai, querendo ou não, essas pessoas que patrocinaram não vão querer patrocinar outro evento. Dificilmente os patrocinadores depois de uma decepção conseguem separar que A ou B faltou com caráter, personalidade e dignidade e vai descontar na Cultura Hip-Hop.

Vão dizer que é farinha do mesmo saco, generalizar.

6) Em sua opinião, porque hoje no Brasil há um número significativo de interessados em aprender a dançar bboying? O que isso trará no futuro?

            O crescente número de competições internacionais com grandes premiações, crews e patrocinadores como a Red Bull, por exemplo, chama a atenção da mídia e das pessoas. Uma boa parte desses interessados entra pensando em status, serem reconhecidos, ganhar mulher em festinhas e coisas fúteis assim. Entram sem um propósito sério, sem respeito à história da dança, seus pioneiros e adversários. Quem não respeita os pioneiros e os adversários não respeita a si mesmo! A realidade e o dia-a-dia de treinos do dançarino urbano no Brasil, no geral, ainda é muito difícil. Poucos podem dizer que vivem da dança de rua, infelizmente. Precisam trabalhar de carteira assinada e levar a dança como um hobby. O que isso trará no futuro? Esses "interessados" são como folhas secas de uma árvore que iram cair com qualquer vento. Mas os verdadeiros representantes são as árvores sólidas, firmes que nenhum vento ou ventania irá tirar do lugar, irá mudar o que ele é e o que ele pratica, representa. E quem estiver perto dos verdadeiros irão dar bons frutos pra Cultura Hip-Hop. Reverencio os verdadeiros (as)!!!

7) As mulheres estão ganhando cada vez mais espaço no meio bboying. Fale sobre a importância da presença feminina na dança.

            Elas trazem além da sua beleza, uma leveza, sensualidade e sensibilidade, uma visão diferenciada dos homens. Graças a Deus, a Cultura Hip-Hop não é machista. A Cultura Hip-Hop nasceu como forma de entretenimento que prega a PAZ, AMOR, UNIÃO e DIVERSÃO. Na verdade, não vejo como importante ou não a presença da mulher na dança de rua. Acho uma coisa natural à presença da mulher dentro da dança de rua como em qualquer aérea da arte, trabalho formal etc. O que é necessário e importante é que mulheres que queiram representar as danças urbanas tenham consciência, competência, supere as dificuldades com determinação e perseverança. Particularmente, acho muito bonito a mulher dançando. Sem hipocrisias ou má intenção.

8) Para os jovens que queiram iniciar o aprendizado da dança e não conheça ninguém do meio, qual o conselho que você daria?

            Se informar sobre tudo que engloba a dança de rua e ter muito cuidado com quem for buscar informação ou onde buscar essa informação (na Internet, por exemplo). Começando errado, a probabilidade de permanecer no erro é muito grande. Buscar não em uma só pessoa mais em várias para ter uma noção, o questionamento é saudável quando tratado com pessoas adultas, honestas e sinceras. Quando buscar informação a uma determinada pessoa levantar informações sobre a mesma (caráter, atitudes, postura ), saber sobre seu trabalho pessoal e da sua crew/companhia, ter referências concretas. O certo mesmo já começa de quem procura aprender, na verdade. Se ela tem qualidades como caráter, lealdade, postura, respeito, ela vai se identificar apenas com pessoas que tenham o mesmo perfil. Se baterem na porta da pessoa errada o tempo vai lhe mostrar que está no lugar errado e vice-versa. Tudo tem um começo e o começo, começa por quem procura aprender.

9) Fale um pouco sobre a atuação de ( você )e ou sua crew  no meio bboying.

            A minha atuação desde quando comecei no final de 1988 (não comecei antes porque onde eu morava, era o único que gostava das músicas que queria aprender a dançar) sempre foi muito importante no contexto geral. Vou tentar resumir: Meu 1º grupo de dança se chamava Beat Master J., e dançávamos New Jack Swing e Jam. Nosso grupo mudou a cena da dança de rua na época porque todos dançavam B.boying, Popping e Power Move. Muitos desses dançarinos nos discriminavam pelo nosso estilo e qualidade na dança. Muitos me disseram, depois de anos, que se encontrasse com a gente num baile, por exemplo, iam pra cima da gente na dança e se perdessem iam pra agressão física, muitos tiveram inveja ou coisas desse tipo. Com o tempo conquistamos o respeito e a admiração dessas pessoas com nosso trabalho. Viemos pra ficar!

    Em meados de 1993, se desfez o grupo e nasceu o grupo de RAP Sistema X. Logo no começo sai e dei o nome de THE DANCERS ao meu novo grupo que contava ainda com Hammer e o Soldierman (na época conhecido como Soldado do Bronx). Esse grupo só solidificou mais ainda nossa história dentro da dança de rua além de ter sido motivo de inspiração para a nova geração de dançarinos de New Jack Swing e Jam. Dia 18 de abril de 1998, reativamos a Recife City Breakers.             Hoje, a Recife City Breakers está sendo reconhecida a nível nacional. Dentro do nosso estado participamos dos maiores eventos como o Skol Hip-Rock em 2003, PE Music Festival 2007 para mais de 25 mil pessoas, fomos selecionados pra Battle Brasil 2008 em São Paulo, Hugo foi indicado o único representante do nordeste no Red Bull Breaking 2008 no Rio de Janeiro, fomos à programas de rádio, programas de TV locais, dois em São Paulo e muito mais. Junto à Fortunato (B.boy da 1ª geração de Recife), criamos a 1ª Posse chamada de UNIDRAD-PE em 1993, que foi um divisor de águas. Priorizamos a informação, fizemos um evento com as 4 vertentes que teve uma cobertura muito grande da mídia em geral, nunca antes vista, para um evento desse gênero e praticamente todos os grupos de Rap, grupos de danças dessa época foram batizados por mim e Fortunato. Demos os nomes e criamos as logomarcas de todos. Um grupo de Rap, por exemplo, que foi batizado e criado a logomarca na UNIDRAD-PE e tem reconhecimento nacional/internacional é o Faces do Subúrbio. Demos visibilidade as 4 vertentes do Hip-Hop e por isso falei da UNIDRAD-PE, ok. Sou Arte Educador em projetos sociais, ministrei aulas em quatro academias, ministrei workshops, Hugo ministra aulas de B.boying numa academia e os outros já estão

capacitados para esse tipo de trabalho. Abrimos espaço para interessados em nosso treino as terças e quintas. Não só passamos as técnicas e básicos, priorizamos a informação correta para que repassem e valorizem o espaço que treinam. Pois, antigamente nenhuma crew abria espaço para interessados e muito menos para B.boys de outra crew. E abrimos espaço também para B.boys de outras crews! Treinamos aos sábados e domingos, nesses dias o espaço é reservado só para a crew RCB por que precisamos montar nossas routines de battles, coreografias e não vamos dar o ouro ao bandido, né?!!!

 

            Para todos que dizem que representam a Street Dancer, Graffiti, DJ e MC sejam apenas um espelho e reflita a Cultura Hip-Hop na sua essência, sem distorcer os fatos, sem apagar o passado, respeitem a própria Cultura Hip-Hop e suas vertentes. As suas atitudes certas e erradas, suas qualidades e defeitos estarão presentes na sua arte, na Cultura Hip-Hop. Para mim, é Hip-Hop para o Hip-Hop!!! Não tem essa de envolver a política dentro do Hip-Hop (mas é claro que precisamos estar por dentro desses assuntos para trazer isso em beneficio do Hip-Hop e não querer vender o Hip-Hop para a política, fazer politicagem. Nossa vida é uma política. Tem a política do bom vizinho, por exemplo) e não tem essa do 5º elemento ser o conhecimento (o próprio Afrika Bambaataa defende o 5º elemento sendo o conhecimento). O conhecimento é tudo. Conhecimento é poder e esse poder ninguém poder lhe tirar. Podem tirar seu relógio e até sua vida mais o conhecimento você vai possuir até o dia da sua morte. Se for assim a nossa vestimenta será o 6º elemento, a gíria será o 7º elemento e assim vai??? O Razhel defende que o Beat Box é o 5º elemento. Não tenho argumento suficiente para questionar isso no momento.  Mas respeito à opinião de qualquer pessoa desde que tenha fundamento e não estou aqui para abrir alguma polêmica, mas tenho opinião própria e me baseio no que aprendi e continuo aprendendo. Desejo uma vida saudável e longa com felicidades, sucesso, conquistas para todos que representam de verdade a Cultura Hip-Hop. Para os da 1ª geração como para os new school. Não importa o tempo de atuação dentro do Hip-Hop e sim as atitudes corretas e justas de quem valoriza e respeita o Hip-Hop.

PEACE ALL

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          BBOY PACHECO - RECIFE BREAKERS CREW